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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

let's get lost... os intelectuais


Depois de ter lido isto e isto e outras coisas que se escreverem sobre o livro de Paul Johnson, Os Intelectuais (e sem grande preocupação em perceber porquê), veio-me à ideia Let's Get Lost, o documentário do Bruce Weber sobre o "lendário trompetista". O documentário tem anos - Weber estava em fase de montagem quando Baker se atirou de uma janela - mas só o vi no último Doc, em Outubro. Lembro-mo dos que saíram da sala completamente arrasados e de alguém que disse "se soubesse que era isto que ia ver, não teria vindo, um músico genial mas um grandessíssimo filho da mãe!".

domingo, 25 de janeiro de 2009

Contudo, à força de encontrar em cada canto a "Introdução à Psicanálise", e seguindo o conselho de dois ou três colegas empolgados, resolvi lançar os olhos sobre o alentado volume. O que esperava encontrar? Sem dúvida coisas proibidas, tudo aquilo que os antigos manuais classificam como indecências. Minha decepção foi enorme. Não compreendia o que entusiasmava tantos os estudantes naquelas páginas de leitura árida. O que havia naquelas crianças complicadas e repugnantes, naqueles bebés imundos, para despertar tanto interesse? As nurseries transformavam-se em antros de orgia onde triunfava o urinol. Tudo se resumia em paixões incestuosas pela mãe e desejos imperiosos de matar o pai. Graças a Deus, nada disso se aplicava à minha pessoa, e conferi a mim mesmo uma grande menção de louvor. Para mim, o que valia era a muralha sólida da Igreja envolvendo minha preciosa pessoa e protegendo-me de todas as imundícies do mundo.
E continuei sozinho, orgulhoso e incompreendido.

(Adrienne Mesurat, Julien Green, Novo Século Editora, S. Paulo)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

o'connor

A religião do Sul é uma religião autodidacta, algo que eu, como católica, considero doloroso e comovente e horrivelmente cómico. Está cheia de um orgulho inconsciente que os prende a todo o género de ridículos preceitos religiosos. Não têm nada que corrija as suas virtuais heresias e, por isso, eles resolvem-nas de forma dramática. Se isto, para mim, fosse apenas divertido, não teria interesse - mas eu perfilho as mesmas doutrinas fundamentais de pecado, redenção e juízo que eles. (na Introdução de O Mundo é dos Violentos, de Flannery O'Connor)
A edição que tenho cá em casa tem anos, é da Fragmentos, o número 5 de uma colecção onde se publicou Pynchon (O Leilão do Lote 49 e V), Barthelme, Hawkes, Bellow e Martin Amis. E isto vem a propósito do quê? Por agora, e aparentemente, de nada... não me lembro do livros que li.

sábado, 17 de janeiro de 2009

«A religião!», exclamou Kliman. «Porque é que eles não confiam na bola de cristal para saber a verdade? Suponhamos que se vinha a concluir que afinal a evolução era um disparate, suponhamos que Darwin era mesmo louco. Haverá loucura maior do que a explicação do Génesis para as origens do homem? Isto é gente que não acredita no conhecimento. Não acreditam no conhecimento exactamente como eu não acredito na fé. Dá-me vontade de ir para a rua», disse-me Kliman, «e fazer um longo discurso.»
«Não ia adiantar», disse-lhe eu.
«O senhor tem mais experiência do que eu: o que é que adianta?»
«A solução dos senis: esquecer.»
«O senhor não é senil», disse Kliman.
«Mas esqueci.»
«Tudo?», perguntou ele, dando-me uma pista de uma possível relação que talvez tentasse estabelecer e explorar: o homem jovem que pede um conselho sábio ao homem mais velho.
«Absolutamente tudo», respondi eu com sinceridade - e como se tivesse mordido o isco.

(O Fantasma Sai de Cena, Philip Roth)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

E aí, pequeno dilema: qual das duas mãos? Ambas naturalmente, eram candidatas à missão, ambas fremiam, impacientes. Mas resolvi ser justo. Num mundo de destros, a mão direita é, em geral, prestigiada; a esquerda, humilde, e não raro desajeitada, sempre teve poucas oportunidades. Resolvi conceder-lhe aquela chance. (...) Tratei, contudo, de convencer a mim mesmo de que me moviam, única e exclusivamente, bons sentimentos: generosidade, solidariedade com os marginalizados, com os excluídos, categoria na qual eu enquadrava a mão esquerda. Todos têm o direito ao prazer e todos têm o direito de se transformar em instrumento de prazer, foi o que pensei.

ii. (Manual da Paixão Solitária, Moacyr Scliar)
Só que, constatei ao me levantar, não era mais Tamar que estava ali. Resultado dos meus espasmódicos, brutais movimentos, a pobre tinha sido completamente destruída, voltara a ser uma massa informe de barro. Como muitos outros, na história da humanidade, eu destruíra o objecto da minha paixão.

(Manual da Paixão Solitária, Moacyr Scliar)